artigo da semana

-CONTOS DESTA E DOUTRA VIDA (EXAME DE VIRTUDE)-

Por Irmão X (Humberto de Campos)

Uma colaboração de Estênio Negreiros (estenio.gomesnegreiros57@gmail.com)

 

 

Narra-nos um episódio autêntico que certo orientador do mundo israelita enviou um discípulo, que se notabilizara na interpretação dos Profetas, para determinada cidade, cujos habitantes se chafurdavam em vícios e enfermidades de toda espécie, com a recomendação de prestar-lhes concurso ativo.

 

Dois lustros correram, e porque as notícias do burgo fossem cada vez mais inquietantes, o guia do povo chamou o enviado, que compareceu, em atitude hierática, mostrando, na túnica lirial e no semblante mortificado de jejuns, a rigorosa observância da Lei.

 

Às primeiras interpelações ouvidas, respondeu, em tom grave:

 

- Mestre, para dar exemplo de virtude, retirei-me para o campo, onde todos sabem que existo.

 

- Compreendo - disse o mentor -, a solidão é necessária para que o pensamento se refaça com a inspiração divina; contudo, sem ligação com as criaturas humanas, é impraticável qualquer obra de auxílio.

 

E o entendimento continuou:

 

- Para não errar, vivo em completo mutismo, no fervor da oração.

 

- Medida essencialmente importante, mas, ainda que tenhamos de aprender em duras experiências, é preciso falar para que o bem seja feito.

 

- Expondo a pureza dos meus sentimentos, visto-me exclusivamente de branco …

 

- Costume honroso; no entanto, isso não deve impedir que nossa roupa se enodoe no trabalho de ajuda aos outros, para ser novamente lavada em momento oportuno.

 

- Minhas refeições são apenas de ervas.

 

- Hábito excelente; contudo, para trazer o corpo em condições de servir, é importante não desertar dos sistemas da alimentação comum, embora seja nossa obrigação garantir a simplicidade e fugir aos desregramentos, usando a carne, o leite, os ovos, as folhas, os frutos e as raízes dos animais e das plantas, tão somente na quota indispensável à manutenção da existência.

 

- Durmo sem qualquer agasalho, fustigando as tendências inferiores…

 

- Louvável propósito, mas, na preservação da saúde orgânica, é justo repousar, nos moldes em que os outros descansam, a fim de que a vida no corpo nos ofereça maior rendimento para o melhor.

 

- Faço, porém, muito mais… Tenho o leito eriçado de pregos, castigando a volúpia da carne…

 

- Nobre intento, sem dúvida… Entretanto, vale mais combater a nós mesmos, na prestação de serviço ao próximo, para que a nossa luta não seja vã…

 

Silenciando o pupilo, indagou o chefe:

 

- E a tarefa de que te incumbiste?

 

- Mestre - replicou o mensageiro, desapontado -, sinceramente devo dizer que os cuidados na apresentação da virtude me tomam o tempo todo…

 

Nisso, belo cavalo de alvo pelo entrou no átrio da casa, conduzindo pobre ferido, cujas últimas energias o deserto esgotara…

 

O velho orientador comandou as providências iniciais de socorro e, trazendo o discípulo à frente do soberbo animal que escarvava o solo, falou com bondade:

 

- Pois olha, meu filho, este cavalo igualmente mora no retiro da Natureza, não se expressa em linguagem humana, veste-se todo em cabelos cor de neve, come apenas a erva que brota do chão, dorme ao relento, é calçado de cravos perfurantes e não passa de um cavalo… Mesmo assim, é o companheiro dos viajantes fatigados e, ainda agora, acaba de arrebatar um mercador prestimoso à sepultura de areia…

 

Em seguida, demandou o interior para confortar o recém-chegado, deixando o aprendiz a meditar quanto à vacuidade da virtude vazia.

 

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