artigo da semana

-CONTOS DESTA E DOUTRA VIDA (VERDUGO E VÍTIMA)-

Por Irmão X (Humberto de Campos)

Uma colaboração de Estênio Negreiros (estenio.gomesnegreiros57@gmail.com)

 

 

O rio transbordava.

 

Aqui e ali, na crista espumosa da corrente pesada, boiavam animais mortos ou deslizavam toras e ramarias.

 

Vazantes em torno davam expansão ao crescente lençol de massa barrenta.

 

Famílias inteiras abandonavam casebres, sob a chuva, carregando aves espantadiças, quando não estivessem puxando algum cavalo magro.

 

Quirino, o jovem barqueiro, que vinte e seis anos de sol no sertão haviam enrijado de todo, ruminava plano sinistro.

 

Não longe, em casinhola fortificada, vivia Licurgo, conhecido usurário das redondezas.

 

Todos o sabiam proprietário de pequena fortuna a que montava guarda, vigilante.

 

Ninguém, no entanto, poderia avaliar-lhe a extensão, porque, sozinho, envelhecera e, sozinho, atendia às próprias necessidades.

 

- “O velho - dizia Quirino de si para consigo - será atingido na certa. É a primeira vez que surge uma cheia como esta. Agarrado aos próprios haveres, será levado de roldão… E se as águas devem acabar com tudo, porque não me beneficiar? O homem já passou dos setenta… Morrerá a qualquer hora. Se não for hoje, será amanhã, depois de amanhã… E o dinheiro guardado? Não poderia servir para mim, que estou moço e com pleno direito ao futuro?…”

 

O aguaceiro caía sempre, na tarde fria.

 

O rapaz, hesitante, bateu à porta da choupana molhada.

 

- “Seu” Licurgo! “Seu” Licurgo!…

 

E, ante o rosto assombrado do velhinho que assomara à janela, informou:

 

- Se o senhor não quer morrer, não demore. Mais um pouco de tempo e as águas chegarão. Todos os vizinhos já se foram…

 

- Não, não… - resmungou o proprietário -, moro aqui há muitos anos. Tenho confiança em Deus e no rio… Não sairei.

 

- Venho fazer-lhe um favor…

 

- Agradeço, mas não sairei.

 

Tomado de criminoso impulso, o barqueiro empurrou a porta mal fechada e avançou sobre o velho, que procurou em vão reagir.

 

- Não me mate, assassino!

 

A voz rouquenha, contudo, silenciou nos dedos robustos do jovem.

 

Quirino largou para um lado o corpo amolecido, como traste inútil, arrebatou pequeno molho de chaves do grande cinto e, em seguida, varejou todos os escaninhos…

 

Gavetas abertas mostravam cédulas mofadas, moedas antigas e diamantes, sobretudo diamantes. Enceguecido de ambição, o moço recolhe quanto acha.

 

A noite chuvosa descera completa…

 

Quirino toma os despojos da vítima num cobertor e, em minutos breves, o cadáver mergulha no rio.

 

Logo após, volta à casa despovoada, recompõe o ambiente e afasta-se, enfim, carregando a fortuna.

 

Passado algum tempo, o homicida não vê que uma sombra se lhe esgueira à retaguarda.

 

É o Espírito de Licurgo, que acompanha o tesouro.

 

Pressionado pelo remorso, o barqueiro abandona a região e instala-se em grande cidade, com pequena casa comercial, e casa-se, procurando esquecer o próprio arrependimento, mas recebe o velho Licurgo, reencarnado, por seu primeiro filho…

 

Publicado na página http://bibliadocaminho.com/ocaminho/txavieriano/livros/Cdd/Cdd12.htm