artigo da semana

-CONTOS DESTA E DOUTRA VIDA (A ÚNICA DÁDIVA)-

Por Irmão X (Humberto de Campos)

Uma colaboração de Estênio Negreiros (estenio.gomesnegreiros57@gmail.com)

 

 

Conta-se que Simão Pedro estava cansado, depois de vinte dias junto do povo.

 

Banhara feridentos, alimentara mulheres e crianças esquálidas, e, em vez de receber a aprovação do povo, recolhia insultos velados, aqui e ali…

 

Após três semanas consecutivas de luta, fatigara-se e preferira isolar-se entre alcaparreiras amigas.

 

Por isso mesmo, no crepúsculo anilado, estava, ele só, diante das águas, a refletir…

 

Aproxima-se alguém, contudo…

 

Por mais busque esconder-se, sente-se procurado.

 

É o próprio Cristo.

 

- Que fazes, Pedro? - diz-lhe o Senhor.

 

- Penso, Mestre.

 

E o diálogo prolongou-se.

 

- Estás triste?

 

- Muito triste.

 

- Por quê?

 

- Chamam-me ladrão.

 

- Mas se a consciência te não acusa, que tem isso?

 

- Sinto-me desditoso. Em nome do amor que me ensinas, alivio os enfermos e ajudo aos necessitados. Entretanto, injuriam-me. Dizem por aí que furto, que exploro a confiança do povo… Ainda ontem, distribuía os velhos mantos que nos foram cedidos pela casa de Carpo, entre os doentes chegados de Jope… Alegou alguém, inconsideradamente, que surrupiei a maior parte… Estou exausto, Mestre. Vinte dias de multidão pesam muito mais que vinte anos de serviço na barca…

 

- Pedro, que deste aos necessitados nestes últimos vinte dias?

 

- Moedas, túnicas, mantos, unguentos, trigo, peixe..

 

- De onde chegaram as moedas?

 

- Das mãos de Joana, a mulher de Cusa.

 

- As túnicas?

 

- Da casa de Zobalan, o curtidor.

 

- Os mantos?

 

- Da residência de Carpo, o romano que decidiu amparar-nos.

 

- Os unguentos?

 

- Do lar de Zebedeu, que os fabrica.

 

- O trigo?

 

- Da seara de Zaqueu, que se lembra de nós…

 

- E os peixes?

 

- Da nossa pesca.

 

- Então, Pedro?

 

- Que devo entender, Senhor?

 

- Que apenas entregamos aquilo que nos foi ofertado para distribuirmos, em favor dos que necessitam. A Divina Bondade conjuga as circunstâncias e confia-nos de um modo ou de outro os elementos que devamos movimentar nas obras do bem… Disseste servir em nome do amor…

 

- Sim, Mestre …

 

- Recorda, então, que o amor não relaciona calúnias, nem conta sarcasmos.

 

O discípulo, entremostrando súbita renovação mental, não respondeu.

 

Jesus abraçou-o e disse apenas:

 

- Pedro, todos os bens da vida podem ser transmitidos de sítio a sítio e de mão em mão… Ninguém pode dar, em essência, esse ou aquele patrimônio do mundo, senão o próprio Criador, que nos empresta os recursos por Ele gerados na Criação… E, se algo podemos dar de nós, o amor é a única dádiva que podemos fazer, sofrendo e renunciando por amar..

 

O apóstolo compreendeu e beijou as mãos que o tocavam de leve.

 

Em seguida, puseram-se ambos a falar alegremente sobre as tarefas esperadas para o dia seguinte.

 

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