artigo da semana

-T. B. C.-

Por Irmão X (espírito Humberto de Campos)

Uma colaboração de Estênio Negreiros (estenio.gomesnegreiros57@gmail.com) - Fortaleza-CE

 

 

Na condição de Espírito, encantamo-nos com certo grupinho de companheiros encarnados que, frequentemente, se reuniam discutindo elevados assuntos do Espiritismo.

 

Leandro, Jonas e Samuel pareciam-nos três apóstolos da Grande Causa.

 

No decurso de cinquenta meses, encontrei-os, semanalmente, em agradável “tête-à-tête”, anotando problemas da Humanidade.

 

Eram apontamentos valiosos à margem do Evangelho, recordações sublimes sobre o Cristo, observações sensatas acerca dos sensitivos que visitavam, altas questões sociais, notícias da mediunidade a repontar-lhes do ambiente doméstico, e impressões próprias de contato com os Espíritos, através dos sonhos que narravam, felizes…

 

Tanta simpatia inspiravam-me os três que não vacilei apontá-los ao meu amigo Cantídio dos Santos, denodado mensageiro da luz entre a nossa pobre moradia, de companheiros dos homens encarnados, e a Esfera Superior.

 

Não seria justo aproveitar a quem se evidenciava na posse de tanto conhecimento? Quem poderia prever a extensão da seara preciosa, capaz de surgir de semelhante conjunto?

 

Cantídio ouviu-me, atencioso, e prometeu providências.

 

Foi assim que conseguiu situar os três amigos, certa noite, num templo espírita, e, no momento aprazado, aí compareceu com Lismundo, respeitável orientador que vinha testar-lhes a decisão.

 

Senhoreando a engrenagem mediúnica, o emissário, com grave fisionomia temperada por larga dose de entendimento, começou a mensagem que encomendáramos, explanando sobre a magnitude do serviço espírita, que claramente classificou como sendo um privilégio que o Senhor concede às criaturas amadurecidas na ideia do bem. Logo após, entrou diretamente no objetivo, convidando os circunstantes à atividade.

 

Porque não abraçarem compromissos edificantes no Cristianismo renascente? Acaso, não se sentiam prestigiados pela verdade?

 

Jonas, Samuel e Leandro discorreram, brilhantemente, quanto às próprias convicções.

 

Porque o instrutor lhes estimulasse a exposição dos pontos de vista, falaram longamente das leituras que haviam efetuado. Exaltaram os princípios de Allan Kardec, louvaram as páginas de Denis, desfiaram as pesquisas de Crookes e Aksakof e analisaram as conclusões de Bozzano e Geley com notável mestria.

 

Ao cabo de duas horas inteiras, em que se derramaram, contentes, no verbo luminoso e estuante, Lismundo lembrou, paciente, o impositivo do trabalho que lhes carreasse os tesouros na direção do próximo.

 

Era preciso rearticular corações doentes e levantar almas caídas…

 

O benfeitor atacou a nova argumentação, salientando a oportunidade de um agrupamento destinado à sementeira da luz. Uma casa de instrução e consolo, em que os necessitados de orientação e esperança encontrassem apoio moral. Um instituto em que a ideia espírita, através do livro nobre, distribuído com largueza de sentimento, pudesse esparzir renovação e conforto.

 

Os ouvintes, contudo, qual se fossem surpreendidos por ducha inesperada, entreolharam-se, transidos de susto.

 

Leandro acusou-se pejado de provações, Samuel declarou-se esmagado por lutas da parentela, e Jonas afirmou-se incapaz de responsabilidades maiores. E enquanto se tornavam monossilábicos e arredios, o embaixador prestimoso indicou vários setores de movimentação apostólica. Santuários espíritas de evangelização, devotamento mediúnico desse ou daquele teor, escolas diversas, hospitais, recolhimentos, creches, berçários e campanhas de benemerência foram alinhados pelo instrutor, durante mais de sessenta minutos consagrados à advertência e à ternura fraterna.

 

O trio, no entanto, mostrou-se irredutível.

 

Alegou-se a falta de tempo, a incompreensão do mundo, a imperfeição da alma, a perseguição dos Espíritos das trevas, os impedimentos físicos e o martírio familiar.

 

Quando os convites minuciosos e reiterados podiam ser tomados à conta de imprudência, Lismundo despediu-se.

 

E, novamente conosco, acalmou-me o desapontamento, explicando, bondoso:

 

- Não se aflija. Estamos à frente de companheiros filiados à T.B.C.; a experiência, contudo, é a mestra de todos… Voltaremos, assim, mais tarde.

 

Dito isso, regressou à sua residência na Vida Maior.

 

Intrigado, perguntei ao amigo que me esperava:

 

- T.B.C.? que vem a ser isso?

 

Cantídio respondeu, a sorrir:

 

- T.B.C. representa a sigla da Turma da Boa Conversa, compreende?

 

Embora agoniado, não pude ocultar o riso franco.

 

Voltamo-nos, então, instintivamente, para os circunstantes, e os três amigos estavam entranhados de novo em palestra acalorada, comentando a mensagem do orientador de maneira chistosa, como se a palavra “responsabilidade” não existisse.

 

Publicado na página http://bibliadocaminho.com/ocaminho/txavieriano/livros