artigo da semana

-PUREZA EM BRANCO-

Por Irmão X (Humberto de Campos)

Uma colaboração de Estênio Negreiros (estenio.gomesnegreiros57@gmail.com)

 

 

Quando Anésio Fraga deixou o corpo físico, ele, que fora sempre considerado puro entre os homens, atingiu a Fronteira do Mundo Espiritual à semelhança de um lírio, tal a brancura de sua bela vestimenta.

 

Pretendia viver nas Esferas Superiores, respirar o clima dos anjos, alçar-se às estrelas e comungar a presença do Cristo - explicou ao agente espiritual que atendia ao policiamento da passagem para os excelsos Planos da Espiritualidade.

 

O zeloso funcionário, contudo, embora demonstrasse profundo respeito para com a sua apresentação, submeteu-o a longo teste, findo o qual, não obstante desapontado, explicou que lhe não seria possível avançar.

 

Faltavam-lhe requisitos para maior ascensão.

 

- Eu? eu? - gaguejou Anésio, aflito. - Como pode ser isso? Fui na Terra um homem que observou todas as regras do Santo Caminho.

 

- Apesar de tudo… - falou o fiscal, reticencioso.

 

- Não me conformo, não me conformo! - reclamou o candidato à glória divina.

 

E sacando do bolso uma lista, exclamou agastado:

 

- Pensando na hipótese de alguma desconsideração, resumi em dez itens o meu procedimento irrepreensível no mundo.

 

E leu para o benfeitor calmo e atento:

 

- Respeitei todas as religiões.

 

- Cultivei o dom da prece.

 

- Acreditei no poder da caridade.

 

- Nunca aborreci os meus semelhantes.

 

- Confiei sempre no melhor.

 

- Calei toda palavra ofensiva ou desrespeitosa.

 

- Calculei todos os meus passos.

 

- Jamais procurei os defeitos do próximo.

 

- Evitei o contato com todas as pessoas viciadas.

 

- Vivi em minha casa preocupado em não ser percalço na estrada alheia.

 

O mordomo da Grande Porta, no entanto, sorriu e comentou:

 

- Fraga, você leu as afirmações, esquecendo as demonstrações.

 

- Como assim?

 

O amigo paciente apanhou uma ficha e esclareceu que o Plano Espiritual possuía também apontamentos para confronto e solicitou-lhe a releitura da lista.

 

E seguiu-se curioso diálogo entre os dois.

 

Principiou Anésio:

 

- Respeitei todas as religiões…

 

E o examinador acentuou, conferindo as anotações:

 

- Mas não serviu a nenhuma.

 

- Cultivei o dom da prece…

 

- Somente em seu próprio favor.

 

- Acreditei no poder da caridade…

 

- Todavia, não a praticou.

 

- Nunca aborreci os meus semelhantes…

 

- Entretanto, não auxiliou a quem quer que fosse.

 

- Confiei sempre no melhor…

 

- Mas apenas em seu benefício.

 

- Calei toda palavra ofensiva ou desrespeitosa…

 

- Não se lembrou, porém, de falar aquelas que pudessem amparar os necessitados de consolo e esperança.

 

- Calculei todos os meus passos…

 

- Para não ser molestado.

 

- Jamais procurei os defeitos do próximo…

 

- Contudo, não lhe aproveitou os bons exemplos.

 

- Evitei o contato com todas as pessoas viciadas…

 

- Atendendo ao comodismo.

 

- Vivi em minha casa preocupado em não ser percalço na estrada alheia…

 

- Simplesmente para não ser chamado a tarefas de auxílio…

 

Anésio, desencantado, silenciou, mas o benfeitor esclareceu, sem afetação:

 

- Meu amigo, meu amigo! não basta fugir ao mal. É preciso fazer o bem. Você movimenta-se em branco, veste-se em branco, calça em branco e brilha em branco, mas a sua existência na Terra passou igualmente em branco… Volte e viva!

 

Angustiado, Anésio perdeu o próprio equilíbrio e rolou da Altura na direção da Terra…

 

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