artigo da semana

-CONTOS DESTA E DOUTRA VIDA (O ANJO, O SANTO E O PECADOR)-

Por Irmão X (Humberto de Campos)

Uma colaboração de Estênio Negreiros (estenio.gomesnegreiros57@gmail.com)

 

 

O Pecador escutava a orientação de um Santo, que vivia, genuflexo, à porta de templo antigo, quando, junto aos dois, um Anjo surgiu na forma de homem, travando-se breve conversação entre eles.

 

O ANJO - Amigos, Deus seja louvado!

 

O SANTO - Louvado seja Deus!

 

O PECADOR - Louvado seja!

 

O ANJO (Dirigindo-se ao Santo) - Vejo que permaneceis em oração e animo-me a solicitar-vos apoio fraternal.

 

O SANTO - Espero o Altíssimo em adoração, dia e noite.

 

O ANJO - Em nome d’Ele, rogo o socorro de alguém para uma criança que agoniza num lupanar.

 

O SANTO - Não posso abeirar-me de lugares impuros…

 

O PECADOR - Sou um pobre penitente e posso ajudar-vos, senhor.

 

O ANJO - Igualmente, agora, desencarnou infortunado homicida, entre as paredes do cárcere… Quem me emprestará mãos amigas para dar-lhe sepulcro?

 

O SANTO - Tenho horror aos criminosos…

 

O PECADOR - Senhor, disponde de mim.

 

O ANJO - Infeliz mulher embriagou-se num bar próximo. Precisamos removê-la, antes que a morte prematura lhe arrebate o tesouro da existência.

 

O SANTO - Altos princípios não me permitem respirar no clima das prostitutas…

 

O PECADOR - Dai vossas ordens, senhor!

 

O ANJO - Não longe daqui, triste menina, abandonada pelo companheiro a quem se confiou, pretende afogar-se… E imperioso lhe estenda alguém braços fortes para que se recupere, salvando-se-lhe também o pequenino em vias de nascer.

 

O SANTO - Não me compete buscar os delinquentes senão para corrigi-los.

 

O PECADOR - Determinai, senhor, como devo fazer.

 

O ANJO - Um irmão nosso, viciado no furto, planeja assaltar, na presente semana, o lar de viúva indefesa… Necessitamos do concurso de quem o dissuada de semelhante propósito, aconselhando-o com amor.

 

O SANTO - Como descer ao nível de um ladrão?

 

O PECADOR - Ensinai-me como devo falar com ele.

 

Sem vacilar, o Anjo tomou o braço do Pecador prestativo e ambos se afastaram, deixando o Santo em meditação, chumbado ao solo.

 

Enovelaram-se anos e anos na roca do tempo, que tudo alterara. O átrio mostrava-se diferente. O santuário perdera o aspecto primitivo e a morte despojara o Santo de seu corpo macerado por cilício e jejum, mas o crente imaculado aí se mantinha em Espírito, na postura de reverência.

 

Certo dia, sensibilizando mais intensamente as antenas da prece, viu que alguém descia da Altura, a estender-lhe o coração em brando sorriso.

 

O Santo reconheceu-o.

 

Era o Pecador, nimbado de luz.

 

- Que fizeste para adquirir tanta glória? perguntou-lhe, assombrado.

 

O ressurgido, afagando-lhe a cabeça, afirmou simplesmente:

 

- Caminhei.

 

Publicado na página http://bibliadocaminho.com/ocaminho/txavieriano/livros/Cdd/Cdd24.htm