artigo da semana

-CONTOS DESTA E DOUTRA VIDA (O ESCRIBA INCRÉDULO)-

Por Irmão X (Humberto de Campos)

Uma colaboração de Estênio Negreiros (estenio.gomesnegreiros57@gmail.com)

 

 

Descansava Jesus em casa de Igorin, o curtidor, no vilarejo de Dalmanuta, quando Joab, escriba em Cesareia, partiu à procura Dele, em companhia de Zebedeu, pai de Tiago e João, que lhe devotava imensa estima.

 

Enquanto caminhava, depois de largada a barca, o amigo da cidade, que jamais contemplara o Doce Nazareno, falava compungido de mágoas que sofrera.

 

Sentia-se doente, em suprema revolta.

 

Desejava escutar o verbo do Senhor para certificar-se quanto à própria conduta.

 

Dizia-se crivado de injustiça e calúnia. Permutavam, assim, impressões espontâneas e afetuosas quando o lar de Igorin lhes surgiu pela frente, ao longe.

 

Ao redor do tugúrio, congregavam-se enfermos, avultando, entre eles, um homem maduro e esbelto a gritar, estentórico, e que, guardado à pressa, excluiu-se do quadro, desafiando, assim, a curiosidade de ambos os viajores.

 

No átrio da casa pobre, indaga Zebedeu de uma velha aleijada quem era aquele mísero, e informa-lhe a anciã que se tratava de um louco infeliz à procura do Mestre.

 

Nisso, Tiago e Pedro aparecem de chofre e dizem que Jesus pretendia ausentar-Se para a prece nos montes.

 

Joab, ouvindo isto, penetra sozinho pela casa, e encontra em quarto humilde o Cristo generoso, meditando em silêncio.

 

- Mestre! - clama, chorando, depois de confortado às saudações primeiras - tenho o peito dorido e o pensamento em fogo, humilhado que estou por injúrias atrozes. Feriram-me, Senhor, enodoando-me o nome e furtando-me o pão… Que fazer ante o mal que me ataca, insolente? de que modo portar-me, perante os inimigos que me cobrem de lodo?

 

- Perdoa, filho meu! - disse o Amigo Celeste.

 

- Senhor, como esquecer malfeitores e ingratos?

 

- Anotando-lhes sempre a condição de enfermos.

 

- Enfermos? como assim, se perseguem matando?

 

- Não procederiam desse modo se não fossem dementes.

 

- Mestre - insistiu Joab -, convém esclarecer que os meus adversários são ladrões perigosos…

 

- São, pois, mais infelizes…

 

- Infelizes porquê? se têm casas faustosas e terras florescentes?

 

- Todavia, amanhã descerão ao sepulcro, abandonando o furto a mãos que desconhecem…

 

- Entretanto, Senhor, sem qualquer razão justa, eles querem prender-me…

 

- Não importa, meu filho, pois todo delinquente está preso em si mesmo às algemas da treva.

 

- Mestre! Mestre! Ainda assim, espreitam-me igualmente em tocaia sinistra, prelibando-me a morte, todos eles armados de punhais assassinos!…

 

- Perdoa e ora por eles - disse o Cristo, sereno -, porque é da Eterna Lei que a justiça se faça… Todo aquele que fere será também ferido…

 

O escriba, em desespero, ajuntou lacrimoso:

 

- Senhor, estou sozinho, despojado de tudo… Iludiram-me a esposa e roubaram-me os filhos… Acusado sem culpa, o cárcere me espera; venerei sempre as leis, guardando-lhes os princípios e toda a minha dor nasce da sombra hostil da infâmia que me cerca! Que fazer, Benfeitor, ante as garras da lama?

 

- Filho, perdoa sempre, olvida todo mal e faze todo o bem, porque somente o bem é luz que não se apaga…

 

Incapaz de conter o assombro que o traía, Joab esgueirou-se de soslaio, perguntando lá fora aos amigos surpresos:

 

- Dizei-me, por favor, onde acharei o Mestre Jesus? quero Jesus para ouvir-Lhe a palavra!… O escriba renitente conservava a impressão de ter ouvido o louco que avistara ao chegar àquela casa, e não o próprio Cristo…

 

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